Como estão as consultas médicas em tempos de Covid-19

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Quantas vezes só por causa de um pequeno mal estar, ao primeiro sinal de febre você correu para o Pronto-Socorro ou Pronto-Atendimento? Ou porque não tem um médico de confiança com quem possa se consultar nesses casos, ou por hábito mesmo. Muitas vezes reforçado por um sistema que ainda apresenta falhas na atenção básica (postos de saúde, centros de saúde, unidades de Saúde da Família etc.), com poucas ofertas de serviço, ou dificuldade na marcação de consultas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Luciana Oncken, 9h58
Colaboração de Bruna Belote

atualizado às 10h07, com nota da editora
atualizado às 11h34 >>> colaboração Bruna Belote
Atualizado em 22/03/2020, com o podcast

O caminho do sistema, que também vale para o sistema privado, é procurar primeiro a atenção básica. A partir daí, se houver necessidade, o usuário do sistema será encaminhado para os outros serviços de maior complexidade da saúde (hospitais e clínicas especializadas).

Ir direto para o hospital é se expor a doenças transmissíveis muitas vezes sem a menor necessidade. “Em qualquer tempo, a busca do serviço de urgência e emergência na assistência à saúde deve ser sempre reservado a esses momentos verdadeiramente que se encaixam nessa definição, situações mais críticas”, destaca o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Clóvis Francisco Constantino*, que também é professor de Ética e Bioética Médica da Universidade de Santo Amaro (Unisa) e membro da Câmara de Bioética do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Constantino ressalta que neste momento de pandemia essas recomendações devem ser ainda mais reforçadas e seguidas pela população. “O ideal é que se busque as consultadas agendadas, evitam-se aglomerações em salas de espera de pronto-atendimentos”.

O CFM ainda não se posicionou claramente em relação a orientações para atendimento em consultórios. Muitos médicos ainda têm dúvidas se devem continuar atendendo. Para a pediatra Denise Lellis, é obrigação Ética do médico permanecer nos consultórios à disposição dos pacientes. “O que pode não parecer uma urgência para o médico, pode ser para o paciente”, considera Lellis. “E se ele não é atendido no consultório acaba indo para o Pronto-Socorro”, completa.

Continuar atendendo com hora marcada seria uma forma de contribuir neste momento delicado para o sistema não entrar em colapso. Para garantir a segurança do paciente, os médicos têm mudado a rotina nos consultórios. Lellis explica que tem marcando as consultas de forma mais espaçada para que as pessoas não se encontrem e não fiquem aguardando na recepção. A higienização de todas as dependências de clínicas e salas médicas têm sido feita em um espaço mais curto de tempo, após cada atendimento. Lellis explica que tudo deve ser feito observando as recomendações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Alguns profissionais têm optado por cancelar as consultas nos próximos dias, até que se tenha uma visão mais clara de como a pandemia irá evoluir no país. Sociedades médicas de especialidades têm orientado os profissionais. A instrução mais comum é dar continuidade aos atendimentos, com exceção de pacientes que apresentem os sintomas da Covid-19, ou para atendimentos eletivos, como exames e cirurgias que podem aguardar um outro momento para serem realizadas.

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Os anestesiologistas suspenderam procedimentos anestésicos eletivos. A medicina nuclear suspendeu a realização de exames de cintilografia de inalação pulmonar, e solicita que os médicos discutam com seus pacientes a remarcação de consultas e exames, principalmente para aqueles que apresentem sintomas. O site da Associação Médica Brasileira (AMB) reúne o posicionamento de cada especialidade.

Sobre as consultas de rotina, Constantino salienta a importância de manter o atendimento, especialmente a pacientes crônicos, e o acompanhamento do tratamento desses pacientes, até para que eles fiquem menos vulneráveis ao Sars-Cov-2. Nesse sentido, a maior parte das sociedades médicas recomenda a continuidade do trabalho em consultório. Para a geriatria, a recomendação é, sempre que possível, o atendimento domiciliar.

 

Telemedicina facilita

 Frente à pandemia de Covid-19, o Conselho Federal de Medicina (CFM), em caráter excepcional e enquanto durar o combate ao contágio da Covid-19, reconhece a prática de consultas à distância (ofício 1756/2020), utilizando recursos de internet, ainda não incluída na última regulamentação da Telemedicina que completa 18 anos em 2020. A resolução 1.643/2002 não contempla os avanços tecnológicos e de comunicação das últimas duas décadas. Além das consultas virtuais, ficam liberadas as teleorientações e o telemonitoramento.

“É um momento de perdas para a humanidade. A nossa disponibilidade de cuidar do paciente, presencial ou a distância, deve ser mantida. A decisão do CFM vem nos dar segurança ética, contribuindo para reduzir a exposição das pessoas ao novo coronavírus”, considera Maria Edna de Melo, endocrinologista do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Em 2019, o CFM chegou a publicar uma resolução (2.227/18), para recuar logo em seguida. Segundo Clóvis Francisco Constantino, da Câmara Ética e Bioética do CFM, houve divergências em alguns pontos e, este ano, a matéria voltou à consulta pública.

Embora a consulta à distância, com transmissão pela internet, ou orientações pelo Whatsapp e Telegram, parte importante da Telemedicina, ainda não fosse regulamentada, já estavam se tornando práticas cada vez mais comuns, principalmente após o anúncio da pandemia de Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada.

Evitar que o paciente, principalmente o idoso, precise se locomover pode fazer muita diferença na transmissão da Covid-19, e preservação da saúde dessas pessoas. A permissão de consultas à distância poderia evitar que as pessoas precisassem sair de casa desnecessariamente para consultas simples, de rotina. “Às vezes o paciente demora duas, três horas para chegar no atendimento, se expondo em todo o caminho, e ficar 15 minutos em consulta”, lamenta Constantino.*

O texto pode ser reproduzido desde que citada a fonte e o autor

*Nota da editora: conversamos antes da liberação do CFM

 

 

 

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