Estudos com biomarcadores avançam para a Doença de Alzheimer

Segundo a associação brasileira, há cerca de 1,2 milhão de casos, maior parte ainda sem diagnóstico

Por Aline Moura | 10/05/2019

Mal ainda sem cura e com tratamentos limitados para inibir a sua progressão, a Doença de Alzheimer (DA) tem sido objeto de um grande estudo de colaboração internacional chamado DIAN (Dominantly Inherited Alzheimer´s Network). Conduzido pela Escola de Medicina da Universidade de Washington (St Luis), o projeto se debruça sobre pesquisas relacionadas a um tipo particular da enfermidade: a Doença de Alzheimer com Herança Dominante (Dominantly Inherited Alzheimer’s disease). A forma hereditária é rara, afetando menos de 1% das pessoas com a doença, e causa perda de memória e demência em indivíduos geralmente na faixa de 30 a 50 anos. A diferença é que, por ser genética e previsível, a sua versão facilita os estudos de biomarcadores, por exemplo.

Foi o que os pesquisadores encontraram e publicaram, em janeiro deste ano, na Revista Nature Med. A descoberta mostrou que uma determinada cadeia de neurofilamentos (NfL) se faz presente no líquido cefalorraquidiano em estágios pré-sintomáticos da doença em sua forma hereditária. O estudo envolveu exames sofisticados, como a retirada de líquor cerebral e a realização de tomografias e ressonância magnética, mas chegou à informação de que basta um exame de sangue para identificar se uma pessoa possui o biomarcador para o desenvolvimento do Alzheimer (em casos de herança genética).

Participam da rede de estudos DIAN diversos países do mundo, envolvendo médicos, neurocientistas, geneticistas, indivíduos e suas famílias. O argentino Ricardo Allegri é o único representante da América do Sul a estar no projeto, por meio do serviço de neurologia Fleni, cujo departamento de Neurologia Cognitiva, Neuropsiquiatria e Neuropsicologia ele chefia.

Allegri conversou com o Informação em Saúde, e nos contou mais sobre as descobertas e as expectativas em torno dos estudos que cercam o Alzheimer:

Informação em Saúde: Como e quando começou a DIAN?

Ricardo Allegri: O Estudo DIAN começou em 2008 e seu objetivo principal é estudar a variante autossômica dominante relacionada ao Alzheimer, um subtipo pouco frequente que normalmente produz perda de memória e demência entre os 30 e 50 anos. Esse subtipo da doença produz mudanças no cérebro que poderiam ocorrer anos
antes da detecção atual dos sintomas.

Informação em Saúde: A pesquisa levou quanto tempo até chegar a esses resultados e envolveu que tipo de estudo?

Ricardo Allegri: Identificar a doença de Alzheimer em suas primeiras etapas é uma das prioridades do DIAN. Os resultados preliminares do primeiro grupo de pacientes (150) indicaram que a química cerebral e as mudanças de imagen podem ser detectados ao menos dez e até vinte anos antes da idade esperada de aparição dos sintomas.

Na Argentina, a Fleni é a única instituição que participa desta investigação sobre a forma hereditária da doença de Alzheimer (ADAD). Cada filho de uma pessoa afetada por ADAD tem uma possibilidade de 50% de herdar a mutação. Se herdada, a doença se desenvolverá por volta da mesma idade que seu progenitor desenvolveu, quase sempre antes dos 60 anos.

Apesar de a ADAD representar menos de 1% de todos os casos da enfermidade, é um importante modelo de estudo se levarmos em conta que seus resultados podem extrapolar para variantes genéticas mais comuns. Os investigadores do DIAN estudam os membros das famílias que têm mutações em um dos três genes: proteína precursora amiloidea, presenilina 1 ou presenilina 2.

Os especialistas destacam a importância de estudar e provar hipótesis neste tipo de pacientes (modelo genético), dado que o desenvolvimento da doença é estereotipado e previsível, o que não acontece em outros pacientes com Alzheimer esporádico.

Potenciais pacientes para participarem do estudo DIAN na Argentina são: pessoas que que possuem pelo menos três gerações de familiares afetados pelo Alzheimer começando antes dos 60 anos, ou que na familia tenha sido detectada alguma mutação nos genes conhecidos que produzem a hereditariedade da doença.

Na recente publicação da revista Nature Med, são explicadas as últimas conclusões do estudo DIAN. A descoberta mais importante foi que através de uma simples amostra de sangue, pode-se chegar à detecção do Alzheimer ao menos dez anos antes do início dos sintomas. Neste quesito, foram estudadas 400 pessoas, incluídos pacientes argentinos, com ADAD.

Informação em Saúde: Então as investigações apenas começaram?

Ricardo Allegri: Sim, o projeto se encontra em curso e seguimos incorporando novos objetos de estudo em todos os centros internacionais de colaboração.

Informação em Saúde: O que as descobertas anunciadas agora representam para a continuidade dos estudos sobre o Alzheimer?

Ricardo Allegri: Esse é um avanço extremamente importante para o Alzheimer, mas também para outras demências relacionadas a proteinopatias e outras patologias neurológicas como esclerose múltipla e os traumatismos cranianos.

Este novo estudo é um biomarcador que se realiza em uma simples amostra de sangue, permitindo detectar a neurodegeneração muitos anos antes do surgimento clínico. Embora pareçam simples, são estudos que exigem investigações mais complexas e que implicam em punção lombar e PET cerebral, por exemplo.

Informação em Saúde: Estamos perto da cura?

Ricardo Allegri: As expectativas são poder dispor de um método simples e para detectar neurodegeneração, nos permitindo tomar decisões e condutas médicas imediatas. O grande objetivo com o Alzheimer é estabelecer um diagnóstico muito precoce para poder investigar os tratamentos nesta etapa. Este é um grande avanço, já que há em curso ensaios farmacológicos avançados mas que encontram dificuldade em detectar os pacientes em potencial.

Informação em Saúde:Como lidar com o dilema de dar a notícia a um paciente de que ele terá Alzheimer em 10 anos, tendo em vista que ainda não há cura para a doença?

Ricardo Allegri: Atualmente, em nosso centro, todos os estudos relativos a este tema se desenvolvem no que diz respeito a projetos de investigação, e não de assistência clínica. Os participantes favorecem o estudo da fisiopatologia e da possibilidade de instituir ensaios farmacológicos muito precoces e em fase pré-sintomática. De toda forma, acredito que nos próximos anos esta informação poderá ser utilizada na assistência clínica, levando ao paciente o direito de saber ou não saber dos resultados.

Compartilhe...