O papel social da inovação

Aparelho que realiza teste ocular em apenas três segundos pode ajudar a ampliar o acesso a diagnósticos e tratamentos de doenças no Brasil

Da Redação | 17/05/2019

O Brasil possui mais de cinco milhões de deficientes visuais. Este número, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), poderia ser menor. De cada dez casos de perda de visão, oito seriam evitáveis. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) alerta para a necessidade de estruturar o Sistema Único de Saúde (SUS) para o atendimento oftalmológico de crianças em idade pré-escolar, por exemplo, já que nessa fase muitos problemas podem ser precocemente descobertos e tratados. Um deles é a ambliopia, também conhecido como “olho preguiçoso”. A doença é uma das causas mais importantes de anormalidades na visão em crianças, e a identificação precoce é o único tratamento. Trata-se de uma deficiência no desenvolvimento normal do sistema visual, durante o período de maturação do sistema nervoso central, e que afeta geralmente apenas um dos olhos. O tratamento pode ser feito por meio de prescrição de óculos ou uso de tampão, a fim de estimular o olho preguiçoso, levando à recuperação permanente ao longo da vida. Por conta disso, a comunidade internacional recomenda que exames de acuidade visual comecem a ser feitos bem cedo, por volta de 3 a 5 anos. E a tecnologia pode ser uma aliada para o alcance desta meta.

Demonstração de uso do Spot Vision em um atendimento | Crédito: Divulgação

Lançado em 2018 no Brasil pela norte-americana Hill-Rom, o equipamento Spot Vision Screener promete fazer o diagnóstico de cinco tipos de refração e estrabismo, entre miopia, hipermetropia, astigmatismo, anisometropia e anisocoria. Também é capaz de realizar a triagem para os fatores de risco da ambliopia. O equipamento se parece com uma câmera fotográfica, é portátil, e basta que o paciente olhe para o visor por três segundos. Pensado para o público infantil, ele possui som atrativo e luzes que fazem com que até um bebê consiga ser submetido ao procedimento.

“Além de fazer a triagem de doenças, o aparelho calcula a refração do grau, levando mais assertividade aos exames tradicionais de visão”, salienta Bernardo Medrado, diretor da Hill-Rom no Brasil. A ideia de operação no país, segundo ele, é fechar parcerias com as secretarias de saúde e levar o equipamento para dentro das escolas. “Fizemos uma prova de conceito, no Distrito Federal, com 400 crianças de 2 a 9 anos. A assertividade foi de 92%, com detecção de 17 distúrbios importantes. Outras experiências têm sido interessantes, como a missão do Hospital das Clínicas da USP, que levou o equipamento para a Amazônia”, conta.

Seja na utilização em áreas remotas, seja nas escolas, a tecnologia permite ampliar o acesso a exames oftalmológicos. Mas não dispensa, claro, a avaliação de um profissional médico, lembra Medrado.

O uso desse tipo de equipamento está no guideline de comunidades internacionais de oftalmologia, como da American Association for Pediatric Ophtalmology and Strabismus. Pesquisa com 444 crianças considerou, por exemplo, que a acurácia no diagnóstico de ambliopia foi a mesma entre o grupo que passou pelos testes tradicionais de visão (tabela optométrica de Snellen) e o grupo submetido ao escâner. No Brasil, estudo parecido foi feito pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo, em 2014, com anuência da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) – já que à época, a tecnologia ainda não estava definitivamente legalizada por aqui. Foram avaliados 97 crianças entre 4 e 6 anos de idade, frequentadoras de escolas públicas ou creches no município de São Paulo. As conclusões mostram que o equipamento foi mais eficaz na detecção de ambliopia do que os testes convencionais.

Em tempos de corte nos orçamentos públicos, a norte-americana Hill-Rom busca um modelo de negócio que viabilize a definitiva entrada do produto no Brasil. A empresa sugere, por exemplo, que o aparelho seja utilizado por meio de assinatura, sendo cobrada uma taxa por cada exame realizado dentro de escolas. O custo para aquisição de um equipamento gira em torno de R$ 25 mil.

Medrado chama a atenção para a geração de valor que a tecnologia médica pode ter na saúde. “Investir em tecnologia para otimizar custos é um caminho inevitável. A indústria tem uma responsabilidade com isso e precisa liderar esse movimento”.

Compartilhe...