Os multifatores do surto psicótico

Estudo relaciona episódios a diferentes contextos, como desemprego, etnia, condições de vida, uso de maconha e até a um processo inflamatório do corpo

Por Aline Moura | 4 de junho de 2019
(imagem de capa: Reimund Bertrams por Pixabay)

Alterações de comportamento, alucinações, delírios e irracionalidade. O sistema límbico do cérebro, responsável pelas emoções, entra em colapso. O pensamento fica confuso, a pessoa não fala coisa com coisa. Grita, chora, pode se tornar violenta. O quadro é delicado e na maioria das vezes acaba na emergência de um serviço de saúde.

Trata-se do surto psicótico. Ele pode ser sintoma de uma doença maior ou apenas um episódio isolado. Qualquer pessoa, se exposta a determinadas condições multifatoriais, pode sofrer um surto ao longo da vida. Mas esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno obsessivo compulsivo e distúrbios de personalidade são as condições psiquiátricas em que o surto é mais prevalente. Uso de álcool e drogas também pode desencadeá-lo. Estudos anteriores já haviam sugerido que o surto psicótico pode ser o resultado de uma série de eventos ao longo da vida, relacionados diretamente com o meio em que as pessoas crescem, se desenvolvem, trabalham e se relacionam.

Publicado inicialmente no “Jama Psychiatry”, o European Network of National Schizophrenia Networks Studying Gene-Environment Interations se debruçou sobre o tema ao avaliar o primeiro episódio de surto psicótico em populações de seis diferentes países, incluindo 17 localidades. Participaram regiões da Inglaterra, França, Itália, Holanda, Espanha e Brasil – único da América Latina a integrar as pesquisas, mais especificamente Ribeirão Preto e 25 municípios do entorno.

De maio de 2010 a abril de 2015, 2.774 pessoas foram acompanhadas, divididas entre pacientes e grupo de controle, levando em conta referências pessoais como idade, sexo e etnia, além de informações sobre latitude, densidade populacional em que os indivíduos viviam, condições de trabalho e estado civil. Os pacientes participantes foram acompanhados pelas esquipes multidisciplinares, responderam a entrevistas, submeteram-se a exames de imagens e a tratamentos para suas doenças de base, quando foi o caso. A amostra contou com 1.196 mulheres e 1.578 homens, numa média de idade de 30.5 anos.

Os resultados, segundo os pesquisadores, acompanham tendências de estudos preliminares, como o conduzido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Schizophrenia: manifestations, incidence and course in different cultures, publicado em 1992 e que levou em conta informações de dez diferentes países.

A psiquiatra Cristina Marta Del-Ben, que coordenou as pesquisas no Brasil, destaca a importância de se estudar os efeitos da urbanicidade na saúde mental das populações, e enaltece a participação do país. “Do Hemisfério Sul, são poucos estudos assim. O único que temos aqui foi feito em São Paulo, de 2002 a 2005. Para este, mais recente, tivemos o apoio financeiro da FAPESP, e a região de Ribeirão Preto foi escolhida por ter uma situação mais favorável, e uma boa relação com a rede pública”, conta.

Del-Ben, que é professora associada do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, destaca que alguns resultados já se esperavam: os surtos psicóticos são mais comuns em homens, com prevalência de 56.9%, e acometem mais as pessoas jovens – entre 18 e 24 anos. Entre as mulheres, há um pequeno pico de incidência após os 45 anos, o que pode estar associado a mudanças hormonais. Regiões com maior densidade populacional também apresentaram mais incidência de surtos, assim como nas populações mais vulneráveis, como de negros, imigrantes ou outras minorias.

“Além de caracterizar a incidência, também tem um estudo de caso controle, para tentar ver a associação com fatores de riscos. O que a gente sabe é que os transtornos psicóticos são multifatoriais – desde uma predisposição genética até eventos que podem ocorrer durante a vida”, destaca a médica.

Na Europa, os dados mostram, por exemplo, que ser migrante aumento o risco de psicose. Viver em grandes centros urbanos também. A incidência de primeiros surtos psicóticos em Santiago, na Espanha, por exemplo, foi de seis novos casos para cada 100 mil pessoas/ano. Em Paris, foi de 46,1 por 100 mil; em Londres, de 61 novos casos para cada 100 mil. “Em Ribeirão Preto, essa incidência ficou em torno de 20, um dado considerado intermediário. Só que na nossa região, os dados seguiram uma tendência contrária do que na Europa: a incidência foi 26% maior em regiões de menor densidade populacional. Na cidade de Ribeirão Preto, com maior densidade, a incidência de casos foi menor. A nossa explicação tem relação com as condições socioeconômicas dessas localidades”, explica Cristina Del-Ben.

De fato, Ribeirão Preto ocupa o 40º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), num universo de 5.570 municípios brasileiros. Já as outras cidades da região estão ranqueadas entre a 145º e a 2.282º posições – www.atlasbrasil.org.br/2013/pt/ranking

O estudo no Brasil rendeu um paper no “British Journal of Psychiatry”, publicado em março de 2019. Por aqui, foram identificados 588 participantes, em três anos. Na conclusão, os pesquisadores sinalizam para a importância de aprofundar as pesquisas sobre o tema, já que “este é um estudo inicial e exploratório no qual foi considerada a densidade populacional como um marcador da urbanicidade. Estudos adicionais com a identificação de variáveis do meio ambiente precisam ser mais explorados, para relacionar melhor a urbanicidade e os fatores de risco para a psicose”.

Quanto mais THC, mais riscos

Derivado do estudo multicêntrico realizado na Europa e no Brasil, o artigo The contribution of cannabis use to variation in the incidence of psychotic disorder across Europe (EU-GEI): a multicentre case-control study, publicado no “The Lancet Psychiatry”, em março de 2019, destaca uma das descobertas mais importantes: o uso regular de maconha, especialmente com alto teor de THC – considerado acima de 10% aumenta em até cinco vezes o risco de um indivíduo desenvolver um surto psicótico ao longo da vida.

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Entre maio de 2010 e abril de 2015, foram obtidos dados de 901 pacientes com primeiro episódio de surto psicótico, por 11 localidades e 1237 pessoas na população controle nas mesmas cidades. Os pacientes responderam a questionários específicos relacionados ao uso de cannabis, incluindo perguntas como frequência de uso, idade da primeira experiência com a droga, potência (THC), dinheiro gasto por semana com o consumo, entre outras informações.

Segundo definição da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), o THC, ou Tetraidrocanabinol, é um dos diversos tipos de canabinoides. Outro, também popular, é o Canabidiol (CDB). A diferença é que o THC é responsável pelos efeitos psicoativos e neurotóxicos da maconha. Já o CDB tem sido utilizado por seus efeitos terapêuticos para diversos tipos de pacientes, inclusive como protetor dos danos causados pelo próprio THC. “O problema é que os efeitos benéficos do Canabidiol não compensam os maléficos do THC quando a maconha é fumada”, descreve a SPDM em seu site.

Uma das conclusões do estudo é que se a maconha com alto potencial de THC deixasse de estar disponível, o número de casos de primeiro episódio de surto psicótico poderia cair em até 30,3% em Londres e 53% em Amsterdã, por exemplo, localidades em que o uso de maconha tem mais incidência, incluindo as mais potentes.

“O alto teor de TCH é muito marcado em Londres e Amsterdã, onde há grande variedade da droga. Com a nossa população, aqui no Brasil, a hora que a gente fala de skank, por exemplo, as pessoas não sabem o que é. Mas a maconha mais potente, com maior concentração de THC, está chegando e o consumo, aumentando”, avalia a psiquiatra Cristina Del-Ben.

Para ela, o debate sobre a descriminalização da maconha não pertence somente ao setor da saúde, mas a missão dos cientistas e médicos é informar a sociedade. “Existe muito essa ideia de que a maconha não faz mal. Como médica e pesquisadora, meu papel é ajudar as pessoas a tomar as decisões, com autonomia”, pondera. Em países europeus, segundo a pesquisadora, os marcadores de THC foram muito mais expressivos. Por aqui, a avaliação desse aspecto não foi assertiva. Mas o uso entre os pacientes mostrou-se muito mais acentuado: 25% entre os que tiveram episódios de surto psicótico declararam consumo recorrente, contra apenas 7% no grupo controle.

Perfil inflamatório

Derivada do estudo multicêntrico, nasce outra vertente de pesquisa, por enquanto exclusivamente brasileira. Trata-se de avaliar o perfil inflamatório dos pacientes com surto psicótico, por meio da medição de citocinas e da avaliação de dados de neuroimagem. Os estudos, ainda incompletos e não publicados, buscam uma associação entre alterações de marcadores imunológicos e a psicose.

As citocinas são moléculas que atuam na comunicação entre as células, especialmente na regulação do sistema imunológico. Atuam como soldados contra uma inflamação ou num processo de cicatrização, por exemplo, multiplicando-se quando precisam atuar. Marcadores com altas doses de citocina, portanto, indicam que há um processo inflamatório em curso e que o corpo tenta combatê-lo. A fim de manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio do sistema imunológico, o corpo humano é capaz de produzir citocinas pró e anti-inflamatórias.

“Resolvemos investir nesse braço mais biológico do estudo. Há pouco dados no Brasil e em países emergentes sobre o tema. A pergunta era: será que a gente tem um perfil diferente do que é visto lá fora?”, explica Cristina Del-Ben. Os resultados iniciais mostram que, nos pacientes com surto psicótico de primeiro episódio, havia um amento tanto de citocinas pró quanto anti-inflamatórias. No começo da doença, a concentração de citocinas inflamatórias era maior, mas depois haveria um mecanismo compensatório, com o aumento de citocinas anti. O uso de medicações antipsicóticas poderia influenciar os resultados, já que elas possuem um efeito anti-inflamatório leve. Mas os resultados se mostraram os mesmos em pacientes sem medicação.

Irmãos de pacientes foram incluídos no estudo, a fim de estudar pessoas que compartilham a carga genética e que vivem no mesmo ambiente. “Vimos que o perfil inflamatório dos irmãos era mais parecido com os controles do que com os pacientes”, revela Cristina. No entanto, um determinado tipo de citocina, que possui um efeito neurotóxico, se mostrou diminuído nos irmãos em relação aos pacientes e aos controles, o que poderia ser uma pista para algum tipo de fator de proteção presente nessa população.

Por ser um estudo de associação, as relações não significam necessariamente causa e efeito. Importante lembrar, segundo a psiquiatra Cristina Del-Ben, que pacientes que possuíam outras doenças associadas que podiam explicar o aumento da inflamação foram excluídos da análise. “Sabemos que algumas variáveis que podem aumentar o nível de citocina, por exemplo, a obesidade, o tabagismo. Excluímos essas pessoas”.

A conclusão inicial é que pacientes psicóticos apresentam estado inflamatório de baixo grau. Mas ainda não é possível saber se é a inflamação que aumenta a vulnerabilidade à psicose ou se é a psicose que provoca o aumento de citocinas, como numa reação a um resfriado.

A conferir.

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