Saúde sem intermediários

Dandelin, aplicativo brasileiro, aposta na força da comunidade para devolver gestão da saúde a médicos e pacientes

Por Aline Moura | 14/06/2919

Foi o Dente-de-leão, aquela planta de flores amarelas e sementes voadoras, que inspirou um jovem paulistano a dar nome à sua startup. A perenidade da flor, cujas folhas não caem e cujas sementes se espalham na velocidade de um sopro, inspiraram Felipe Burattini a criar o conceito de economia compartilhada que está por trás da ferramenta Dandelin (de Dandelion, em inglês, que significa Dente-de-Leão).

A ideia de criar a ferramenta nasceu na Alemanha, onde Burattini passou quatro anos estudando empreendedorismo, liderança criativa e inovação na Berlin School of Creative Leadership. “Comecei a pensar nisso em 2017, morando em Berlim, onde a economia compartilhada é muito forte”, conta. O mercado imobiliário é um dos exemplos. “Se o preço está muito alto, eles juntam uma quantidade de famílias que morariam num prédio, compram o terreno e sobem a construção, compartilhando tudo para reduzir o custo, cortando o intermediário, que é a construtora”.

Foi esse espírito que contaminou Felipe Burattini. Só que adaptado para uma área com sérios problemas de acesso, custeio e regulação no Brasil: a saúde. “Comecei a ver os números do mercado: 75% da população não tem seguro; temos mais de 200 mil mortes evitáveis por ano; o preço dos planos de saúde tem aumentado em taxas muito acima da inflação e, nos últimos três anos, mais de três milhões de brasileiros perderem o acesso aos convênios”, lista o empreendedor.

Os cálculos para a construção do aplicativo, que nasceram com rabiscos em folhas de guardanapo, foram aos poucos ganhando a sofisticação da inteligência artificial e dos conceitos de machine learning (área da ciência da computação que significa ¨aprendizado da máquina”). Era junho de 2017. “A primeira pessoa que eu conversei foi um romeno, crânio de finanças, que conheci em Berlim. Pedi para ele me ajudar, levantamos todas as informações do mercado de saúde no Brasil, valores, hábitos, colocamos tudo planilhado e vimos que era viável. Então eu comecei a correr para lançar a ideia o quanto antes”.

Como funciona

Em abril de 2018, menos de um ano depois, nascia o Dandelin, em versão beta. A ferramenta é algo bem simples, como o sopro no Dente-de-leão: conecta médicos e pacientes para a realização de consultas. Até aqui, nenhuma novidade. A disrupção reside no compartilhamento: o paciente não desembolsa nenhum real pela consulta. Paga apenas pelo rateio, entre a comunidade de usuários, pelo número total de consultas feitas no período de um mês. Quanto mais pessoas conectadas, mais barato fica. Paga-se, portanto, uma mensalidade variável, por meio de cartão de crédito, no próprio aplicativo. O valor pode ir de R$ 0 a R$ 100. “Caso ninguém passe por consulta, não há nada para pagar. Se todo mundo da comunidade fizer uma ou mais consultas, o máximo que se vai pagar são R$ 100. O excedente, se houver, é de responsabilidade da empresa”, garante Burattini.

Segundo ele, o tíquete médio atual do valor do rateio mensal é de R$ 25. O médico, por sua vez, que não paga nada para se cadastrar no aplicativo, recebe R$ 100 por consulta. “É mais do que ele recebe de planos de saúde, e não tem glosa nem prazo abusivo para receber. No fim do mês, após o rateio, ele recebe por todas as consultas que realizou. A intenção também é fidelizar o profissional. Depois de um ano na plataforma, ele passa a receber R$ 150 reais; após mais um ano, R$ 225. É como um programa de fidelidade”, explica o CEO e fundador do Dandelin.

Como em toda comunidade de compartilhamento, a ideia só dará certo se houver adesão. Hoje, em sua versão beta, o app possui 2.500 usuários e 700 médicos cadastrados, em mais de 30 especialidades, com 17 mil horários disponíveis. A base territorial está concentrada em São Paulo, capital, mas Burattini afirma que até o fim do ano haverá expansão para as regiões do ABC e da Baixada Santista. Na sequência, para os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pernambuco.

Exames serão incluídos

A democratização do acesso à saúde preventiva é um dos objetivos da iniciativa. Por isso, Felipe anuncia a primeira parceria, com o Laboratório Schmillevitch, para ofertar um portfólio inicial de exames (de 50 a 100 diferentes tipos). “Como ainda não temos muitos usuários, não podemos oferecer todos os 2.500 exames disponíveis, mas vamos começar pelos mais prevalentes. Estamos tentando focar mais na necessidade da população e menos no ganho financeiro dos exames”, destaca. O valor a ser pago continuará o mesmo: a mensalidade variável rateada entre a comunidade, de R$ 0 a R$ 100. A expectativa é que a parceria esteja funcionando em dois meses.

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Os planos para o futuro são ambiciosos. O CEO do Dandelin nos conta que quer incluir tudo no aplicativo: consultas com todos os profissionais de saúde, e não apenas médicos, exames, procedimentos e até internação. “Perguntam muito quando vamos incluir hospital. E eu respondo: depende de quantas pessoas vão se cadastrar. Se a gente tiver, em um ano, 300 mil usuários ativos, poderemos oferecer praticamente todos os serviços que os melhores planos de saúde oferecem, com a mesma lógica do R$ 0 a R$ 100”. Ele admite que há problemas a serem resolvidos, como o alto custo dos procedimentos e a cultura dos gastos excessivos. “Mas o valor é o uso real. Estamos apenas organizando, e dependerá da comunidade. A gente está tentando fazer essa descentralização e devolver o poder para pacientes e médicos. Hospital é consequência, quem tem paciente é médico, e não hospital. E o legal da economia compartilhada é que a solução está na comunidade, não é tecnologia, não é nada; é comportamental, são as pessoas que começam a se ajudar”, resume.

Pensando nisso, o aplicativo prevê punição para maus comportamentos. Por exemplo: se um paciente não comparece a uma consulta uma vez, o médico recebe, e a comunidade absorve o custo. A reincidência, no entanto, pode levar ao bloqueio do usuário no sistema. A má conduta dos médicos também pode ser denunciada em rede e punida com expulsão, após avaliação.

Ao contrário de algumas modalidades de planos de saúde, como os individuais, a utilização dos serviços no Dandelin não tem carência. O usuário se cadastra e pode marcar uma consulta no mesmo dia, conforme disponibilidade. Se resolver sair, também pode. “Paga somente a mensalidade proporcional do rateio e sai”, explica o CEO.

Tocado por uma equipe enxuta de seis pessoas, o Dandelin contou até agora com investimentos próprios no valor de R$ 500 mil. O lucro da empresa vem de uma taxa de administração de 20%. Isso significa que cada consulta realizada custa à comunidade, na verdade, R$ 125 reais. Desses, R$ 100 são repassados ao médico, e R$ 25 fica com os fundadores. Para os profissionais médicos, o custo é zero.

Aceleração

Recentemente, a startup foi selecionada para participar do programa da Quintessa, uma aceleradora conhecida por abarcar projetos que tenham impacto social, e que se apresenta por meio do desejo de “ressignificar o papel de empresas como instrumento de geração de impacto e estimular a gestão consciente e humana.”

Em seu pitch (curta apresentação, de 3 a 5 minutos, com o objetivo de despertar o interesse de investidores), a equipe do Dandelin prospecta um crescimento extraordinário até 2021, com a reunião de 340 mil usuários no Brasil. Para médio e longo prazos, o CEO sonha ainda mais alto: “O plano é ser global. O modelo se encaixa basicamente em todos os lugares, até no Reino Unido, que tem o NHS, mas que também enfrenta problemas de acesso. Já na Alemanha, teríamos que entrar como seguro, porque lá todo mundo tem que ter um plano de saúde”, avalia.

A escolha por iniciar a empresa no Brasil tem a ver com a nacionalidade do fundador, é claro, mas também com oportunidade. “Optamos pelo Brasil para focar em extremos. Se conseguirmos achar uma solução e causar impacto num país continental e com tanto problema, depois será fácil replicar.”

Felipe Burattini conversou com o Informação em Saúde numa tarde do dia 5 de junho, no bairro da Vila Madalena, na capital paulista. Enquanto comemorava a incursão no programa de aceleração, fazia as malas para viajar novamente, dessa vez para a Universidade Stanford, no Palo Alto, Califórnia, onde faria um curso intensivo de dez dias sobre inovação em cuidados de saúde. A oportunidade surgiu após o envio do projeto Dandelin à universidade.

Para encerrar, pergunto se ele está preparado para enfrentar os grandes intermediários da saúde, como as seguradoras e os planos. E ele responde, entre a humildade e a audácia, sorrindo: “Ainda somos muito pequenos. Mas o poder não é nosso, é da comunidade. Se tiver adesão, não terá como frear. Aí, com certeza as empresas vão querer bloquear a gente”.

Em tempo

O Dandelin está disponível para download em versões Android e IOS.

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